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Severa Crítica ao Poder – A Forma Mais Abrangente do Pecado

Por Edegard Silva Pereira

No Gênesis começa uma linha de severa crítica ao poder que percorre a Bíblia até o Apocalipse. Essa crítica consiste em apresentar o poder, principalmente o poder político em simbiose com o poder religioso, como a forma mais abrangente na qual o pecado se historiza. Pode haver uma crítica mais severa do poder que relaciona-lo com o pecado?

Aqui abordamos o tema segundo a intenção da seqüência de histórias contadas nos capítulos 3 a 11 do Gênesis, que é apresentar um panorama da fase inicial da avalancha de corrupção e de reações destrutivas resultantes da universalização do pecado. Tal panorama nos mostra como o pecado age no mundo, conquistando paulatinamente níveis cada vez mais amplos e profundos da vida humana. 

A relação entre pecado e poder

Como as narrativas relacionam o pecado com o poder?

Em primeiro lugar, constamos essa relação na maneira como as narrativas de Gn 1 a 11 estão concatenadas. Observamos ao estudar Gn 1 e 2, que os relatos da criação apresentam a Deus como o único Senhor do homem, e que Deus deu ao homem o encargo de ter domínio sobre os animais. Também temos no capítulo 3 que pecado é essencialmente o atentado contra a soberania de Deus, e se manifesta como o poderoso e ilegítimo impulso (designado hybris pelos gregos) de auto-elevação do plano humano para o plano divino, com o qual o homem pretende uma mudança existencial: ele não quer ser “imagem de Deus”, como lhe foi dado na criação, quer ser “como Deus”. E para ser como Deus, o homem tem que ultrapassar os limites de seu domínio sobre os animais e exerce-lo sobre seus semelhantes. O que caracteriza o atentado contra a soberania divina.

Nos tempos bíblicos, o impulso de auto-elevação se manifestava na divinização aberta do homem pelo homem, que acontecia de duas maneiras: atribuindo aos governantes um caráter divino e oferecendo aos indivíduos comuns a oportunidade de participarem da natureza divina, mediante o trato sexual com as prostitutas sagradas nos templos pagãos.

Em segundo lugar, a relação entre pecado e poder aparece em Gn 4 a 11, em relatos de episódios nos quais o homem caído em pecado usa o poder de forma iníqua. Aí o pecado não só tem o sentido de rebelião contra Deus, mas também o sentido de usurpação da soberania divina. As narrativas mostram que já nos começos da civilização, o homem  desenvolveu formas de poder político às quais atribui propriedades divinas. Pois é no poder político que o homem encontra a dimensão mais ampla possível para imitar a Deus. (Veja no Apêndice ... exemplos de formas de poder político, às quais se atribuíram propriedades divinas.)

A teologia da criação relaciona o pecado com o poder com base na seguinte formulação: como criatura, o homem transcende a si mesmo e tem seu ser e seu mundo centrados em Deus; mas mediante as diversas formas de auto-elevação, o homem pretende ocupar o lugar de Deus, ou seja, pretende tirar a Deus do centro e colocar-se como centro de si mesmo e de seu mundo.

As narrativas de Gn 3-11 mostram como o pecado tomou conta da plenitude da existência humana. A seguir, resumimos o que elas querem dizer nesse sentido, apresentando três etapas, nas quais o pecado vai conquistando paulatinamente níveis cada vez mais amplos e profundos da vida humana. Para tal, me parece suficiente escolher três histórias: a queda de Adão e Eva, a geração pré-diluviana e a construção da torre de Babel. Dou mais atenção a este último relato, pois é o que deixa mais clara a relação entre pecado e poder. 

O pecado encarna no gênero humano

Na primeira etapa, o pecado encarna no gênero humano e passa a fazer parte —e a parte dominante— da natureza de cada indivíduo. E isto é tão misterioso como o próprio pecado. Nas narrativas dos primeiros capítulos do Gênesis, Adão e Eva não são apenas os primeiros ancestrais da humanidade, representam a humanidade em todas as épocas. Elas afirmam que o que aconteceu com o casal primordial, acontece com todas as pessoas em todos os tempos e lugares: todos devoramos “a fruta da árvore do conhecimento do bem e do mal”. E essa dualidade de representação serve para mostrar que o pecado atingiu, já no seu início, o gênero humano como um todo.

Observamos que a narrativa de Gn 3 sugere que a queda no pecado é a ruptura do homem com sua natureza original (perda da criaturalidade). O que surge depois da queda é o homem de pecado, cuja natureza pecadora é hereditária. Depois da queda e da expulsão do paraíso, o homem de pecado passa a usar sua liberdade e autonomia para criar formas de vida centradas na auto-elevação, com as quais deseja apropriar-se da grandeza e da glória divinas.

O pecado encarna na cultura e na sociedade

Na segunda etapa, o pecado encarna na cultura e na sociedade da geração pré-diluviana. As narrativas mostram que, com o aumento da população, o homem organizou sua vida coletiva em pecado. Segundo Gn 4:17-24, Caim funda uma cidade. Seus descendentes iniciam a poligamia e a cultura material e técnica, voltada para a produção de bens materiais capazes de produzir comodidade, prazer e poder. A luta pela conquista do poder resulta numa sociedade corrupta, violenta e vingativa.

E Gn 6:1-9 mostra que o pecado, encarnado na dimensão coletiva da existência,  se generalizou completamente: 1) era universal — estendia-se a todos os seres humanos, menos a Noé; 2) era total — não havia boas ações, agia-se só no sentido do mal; e 3) era contínuo — o pensamento era o tempo todo orientado para o mal, não havia momentos de arrependimento. E apresenta o efeito da proliferação do mal: a catástrofe, o dilúvio.

O pecado encarna na religião e na política

Na terceira etapa, o pecado encarna na simbiose entre religião e poder político. O foco está no modelo estabelecido por Babilônia (ou Babel em hebraico), que serviu de inspiração para outros povos da Antigüidade. O relato de Gn 11:1-9 refere-se à utilização conjunta da religião e da política como pilares sustentadores de uma estrutura de poder que oficializa a auto-elevação e está orientada para a dominação de outros povos. Essa simbiose é fundamental: o poder político depende da religião para legitimar a imitação de Deus no exercício do poder. É o que a narrativa denota com a menção conjunta da torre e da cidade.

Com certeza a torre é um zigurate, uma torre-templo de patamares, o lugar sagrado da religião dos semitas habitantes da Baixa Mesopotâmia. Para os sumérios, construir um zigurate era sempre o projeto principal e indispensável da ereção de uma cidade. As escavações arqueológicas mostram que os sumérios levantaram várias torres-templo na Baixa Mesopotâmia, dedicadas ao culto dos deuses tutelares de suas cidades.

O mesopotâmico considerava a ordem social e política como um reflexo do divino. A derrota e a conquista de uma cidade significava a derrota de seu deus tutelar na assembléia dos deuses. A vitória de uma cidade na guerra e sua proeminência sobre outras cidades era interpretada como uma vitória de seu deus tutelar na divina assembléia. E assim, a religião e a política foram colocadas em conjunção na sociedade, primeiro pelos sumérios e depois pelos babilônios, com forte conotação hegemônica.

Os seguintes dados históricos confirmam a encarnação exemplar do pecado na simbiose entre a  religião e a política de Babilônia.

1. Institucionaliza a auto-elevação dos governantes.

A torre-templo de Babilônia foi o maior zigurate levantado na Baixa Mesopotâmia. As escavações arqueológicas sistemáticas de R. Koldewey, efetuadas entre 1899 até 1917, revelam que tinha 91,55 m de lado e uma altura provável de uns 90 m. Os babilônios chamavam-no de Etemenanki (Casa do fundamento do céu e da terra). Tinha sete patamares; o mais alto era o santuário de Marduque (o Bel ou Merodaque da Bíblia), o deus estatal de Babilônia. Periodicamente, durante as grandes festas religiosas do Ano Novo, os potentados com seus pomposos séqüitos, provenientes de todos os reinos, compareciam para escalar a grande torre-templo, a fim de tocar as mãos de Marduque e assim receber poder para governar por muitos anos.

Marduque era o deus do poder e a torre-templo era a fortaleza e o santuário do poder. Por ela os potentados podiam "subir" a fim de receber um poder transcendente. O Etemenanki constitui um dos mais notáveis símbolos antigos da auto-elevação do homem do plano humano para o plano divino no exercício do poder político.

2. A religião legitima a desigualdade entre governantes e governados.

Só os potentados, secundados pelos sacerdotes, podiam subir a torre. Durante a cerimônia da ascensão, as pessoas comuns podiam ficar observando do nível do chão. Se alguém do povo ousasse subir a torre, era morto, pois tinha cometido o mais grave dos sacrilégios: profanar a estrutura de poder, cujo fundamento é a desigualdade entre governante e governado.

O poder político existe quando a sociedade é dividia em duas categorias, dominadores e dominados, e quando a dominação é institucionalizada. Para que alguns tenham poder é preciso que os outros sejam desprovidos de poder. Por isso, o poder cuida de sua sobrevivência defendendo, pelo uso da coerção, seu caráter dessimétrico, não igualitário, hierárquico. A função da religião babilônica era apresentar o poder político como algo derivado da divindade. Como não existe poder sem uma elite que domine, Babilônia era dominada pelas elites real e sacerdotal.

3. A religião proclama a hegemonia do poder político de Babilônia no mundo.

De um principado insignificante na III dinastia de Ur (aproximadamente 2060-1950 A. C.), Babilônia passa para primeiro plano na I dinastia de Babilônia (1836-1531 A. C.). Desde o terceiro milênio, os reis de Babilônia procuravam dominar politicamente os povos vizinhos e fazê-los gravitar na órbita de Babel. E, orgulhosamente, chamavam a si mesmos de "reis das quatro regiões do mundo". Nisso, verificamos que hegemonia e arrogância andam juntas desde o começo da civilização.

A primazia de Babilônia é interpretada, no prólogo e no epílogo do Código de Hamurabi, em função da preeminência conquistada por seu deus tutelar na assembléia dos deuses. Marduque, representando a luz, vence o gigante Tiamate, representante das trevas. Por causa dessa vitória, Marduque assume a liderança dos deuses e o reino de Babilônia assume a liderança dos demais reinos. É muito significativo notar essa aplicação da luta entre a luz e as trevas no campo político já em tempos remotos. A preeminência de Marduque determinava a preeminência do seu representante legítimo, o rei de Babilônia.

A hegemonia é uma forma de violência praticada por uma elite que quer ser dominante sobre outras elites e suas clientelas. E é por esse caminho que o homem quer usurpar a soberania de Deus no mundo. Mas Deus frustra essa intenção das elites política e religiosa  de Babilônia. Confunde as línguas e dispersa os povos. Na complexa diversidade de línguas e povos reside o estigma da intervenção punitiva divina: Deus é contrário à hegemonia de um povo e a um governo humano universal.

Babilônia jamais seria o que foi sem a religião. A grandeza do reino estava ligada a seu deus nacional, Marduque. Era um reino eminentemente religioso. A narrativa de Gn 11:1-9 nos faz pensar na simbiose entre religião e poder político como instrumento do pecado, porque fornece as estruturas que tornam possível a auto-elevação, o atentado contra a soberania de Deus. Nessas estruturas, os indivíduos podem escalar posições e sentir-se como seres superiores quando alcançam as mais altas e passam a usufruir privilégios especiais enquanto exercem o domínio sobre outros.

A função  da religião, quanto aparelho ideológico do Estado, sempre consistiu em fabricar ilusões com as quais domestica o pensamento e forma consensos, a fim de tornar possível a gestão social pelo poder político. E isto não é percebido pela maioria das pessoas devido à seguinte crença popular: "toda religião é boa contanto fale de Deus e ensine as pessoas a viver em ordem". Em Babilônia falava-se muito a respeito da divindade e da ordem. Mas é preciso entender a finalidade dessa fala e descobrir a quem ela beneficia. Mediante a afirmação "Deus quer assim", ou "essa é a vontade de Deus", a religião pode estar usando o nome de Deus para colocar o pecado, na forma de auto-elevação, como virtude.

A linha de severa crítica ao poder que começa no Gênesis segue até o fim da Bíblia. Passa pelos profetas, os quais pré-anunciam a destruição completa de Babilônia, a grande cidade que desde o começo quis usurpar a soberania de Deus e dominou outros povos com crueldade, transformando-se numa potência má. Termina no Apocalipse com Babilônia sendo o símbolo quase mítico das forças religiosas e políticas que são o antítipo do verdadeiro povo de Deus. No Apocalipse, Babilônia é mais uma noção teológica que geográfica, e pode designar outra cidade, por exemplo, Roma (Ap 17:18; comparar com 1  Pe 5:13). Isso significa o seguinte: apesar de que a antiga Babilônia foi completamente destruída, seu espírito continuará presente até o fim dos tempos, nas potências hegemônicas de turno.

A auto-elevação hoje

E de fato, o espírito de Babilônia permanece vivo nas estruturas administrativas do tempo presente, as quais são requintados “zigurates” modernos dedicados à auto-elevação. As estruturas hierárquicas e burocráticas do Estado e das corporações mercantilistas e religiosas oferecem a possibilidade de se escalar os patamares da pirâmide do poder..

Essas estruturas caracterizam-se pela eterna luta dos indivíduos por atingir um patamar mais alto. A recompensa oferecida é riqueza, status e poder. A escalada tem resultados desastrosos: agressividade e competitividade são consideradas virtudes pelos escaladores, os quais fazem que a escalada seja violenta. As estruturas hierárquicas e burocráticas obedecem a esta convenção: aquele indivíduo que não está em cima, está em baixo. E o que está em baixo é confinado a uma condição de inferioridade. Nessa condição injusta encontra-se a maioria das pessoas.

O que vemos nas sociedades modernas é que todos estão procurando sobressair em relação aos outros não só na política, mas também no trabalho, no esporte, no estudo, no trânsito, nas discussões, no status. O impulso de “subir” é constantemente reforçado na família, na educação, nas igrejas e no trabalho. Há muita gente devotando suas energias à escalada dos “zigurates” modernos para impressionar os outros. O mais indesejável resultado desse aspecto do processo social é sua capacidade para desumanizar. Transforma seres humanos em objetos, em robôs, em fantoches, em autômatos ou em verdadeiros animais predadores.

Mas o Gênesis mostra o preço pago pela humanidade na realização de seu projeto de marchar para uma grandeza civilizada, crescendo para o alto mediante a auto-elevação: sua alienação mais profunda de Deus e da condição humana, e o sentimento agudo de isolamento da maioria dos indivíduos.

Reflexões finais

Segundo as Escrituras, o pecado se manifesta na plenitude da existência humana. Torna caótica a realidade e seus efeitos destrutivos são evidentes em todas as áreas da vida. A encarnação do pecado na política e na religião é algo tão real que se pode identificar na História. Mas o cristianismo ideologizado, que copiou as estruturas do Estado e das grandes corporações mercantilistas, prefere falar mais da ação do pecado no indivíduo. Restringi-lo à forma individual de existência significa apresentar uma idéia mutilada do mal e fomentar a ignorância de como o pecado age no mundo.

A imitação de Deus por parte do homem nas estruturas de poder, mesmo nas religiosas, é sempre uma caricatura grosseira e distorcida de Deus, porque o homem geralmente usa o poder como a antítese do amor que caracteriza a soberania divina.

Desde a entrada do pecado, proliferam nas sociedades humanas os homens que se transformaram em deuses pequeninos. Mas segundo as Escrituras, o homem não é, nem nunca será, o deus diante de quem outro homem deve ajoelhar-se.

Quando o pecado encarna no poder, este corrompe e destrói. Não só as Escrituras nos advertem sobre a corrupção e a destruição causada pelo poder, mas também pensadores antigos e modernos. Então, por que amamos tanto o poder? Por que não podemos viver sem as formas de poder que formigam à nossa volta? 

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